O Galho
Bati a porta. Havia entrado no quarto com o sangue a ponto de ebulição, e quando se chega em algum lugar nesse estado, é praticamente obrigatório bater a porta. Pois então, bati. Preferia era ter batido no meu primo.
Existem três categorias de primo. A primeira é o primo-irmão, que ocupa um lugar no peito da gente. Aquele primo tão próximo que não parece só primo, por quem a gente morreria. A segunda é o primo-encrenca, que ocupa um lugar na cabeça, mas um lugar chato, que só traz preocupação e irritação. E tem o primo-que-existe, que não ocupa lugar nenhum, e a gente só lembra que existe quando tem que conviver em almoço de família.
O Neto é um primo-encrenca. Engraçado chamar o primo de Neto, mas melhor do que a alternativa. O nome dele é Alcebíades Neto. Meu pai, que nunca gostou do Alcebíades Filho, diz que é uma busca desesperada por alguma glória inexistente na família. É chique ter gerações com o mesmo nome. Eu já acho que o vô Alcebíades odiava o filho, e que o tio Alcebíades odeia o Neto. Só isso explica alguém fazer uma coisa dessas. Minha mãe acha que nós implicamos demais.
Mas como não implicar? A simples existência do Neto pede por isso. Ele é alto demais e magro demais, parece um galho seco. O galho seco da árvore genealógica da família. Parece que vai quebrar ao meio se você soprar perto dele. E o que tem de altura, tem de irritante. Parece que precisa preencher todo o espaço que o corpo não ocupa, só que com todas as coisas erradas. Tão bom seria, já que não dá pra ser um primo-irmão, se o Neto fosse um primo-que-existe. Tipo a Marlene. A Marlene existe, e é isso. Mas não é possível esquecer o Neto. Não dá pra esquecer da vez que ele chegou na janta da família trazido pela polícia porque invadiu uma casa velha pra pichar, ou de quando ele bateu o carro novinho do Tomás no muro ali da esquina. Não, o Neto se faz lembrar o tempo todo.
Às vezes eu me pergunto se meu pai tem razão, e a tradição do nome é para ser algo glorioso. Se for, aposto que o tio Alcebíades se arrepende até hoje. Afinal, imagina você querer passar adiante uma tradição de família, só pra acabar com um problema em forma de gente. Eu não me meto em encrenca, nem o Tomás. A Marlene provavelmente também não, se não a gente lembrava da existência dela mais vezes né. Por que não dava pro Neto ser mais que nem a gente? Já ouvi o tio Alcebíades perguntar a mesma coisa. Quando eu perguntei isso pro Neto, ele me deixou falando sozinho e saiu. Voltou mais tarde com a cara arrebentada. Problema dele.
Daqui do quarto dá pra ouvir o telefone tocando na sala. Deve ser mais alguma encrenca do Neto. Não me preocupo em tentar ouvir o que dizem, mas de repente minha mãe solta um grito. Meu pai parece tentar acudir, mas ela chora e geme que mais parece um bicho. Os minutos passam, não consigo me levantar da cama para ir ver o que houve. Quando ouço os passos do meu pai no corredor, e a forma cautelosa com a qual ele bate na porta do meu quarto, já tenho uma ideia. Meu sangue gela.
Ele abre a porta.
O galho quebrou.